Manuel da Costa Ataíde, também conhecido como Mestre Ataíde, destacou-se como um talentoso pintor durante o período colonial brasileiro (Souza, 2019). Porém, em um olhar contraposto, Almeida (2018, p. 203) menciona que Ataíde teria sido apenas “um pintor médio […] que pintou o possível em suas condições materiais e culturais. Sem grandes informações culturais, foi representativo da média cultural de seu tempo”.
Analisando cuidadosamente a informação em questão, é importante destacarmos os aspectos sociais significativos da diversidade cultural e racial presente na arte brasileira, tal como retratada nas obras de Ataíde, evidenciando não se tratar apenas de um artista em conformidade com o suposto padrão mediano do seu tempo. Esses elementos existentes na arte de Ataíde se contrapõem aos padrões culturais europeus que foram inicialmente impostos como referência para a produção artística no Brasil (Almeida, 2018; Martins, 2019; Melo, 2019; Souza, 2019).
Pois bem, mas, exatamente quem foi o mestre Ataíde? Ataíde nasceu em Mariana/MG, no dia 18/10/1762. Era filho de Maria Barbosa de Abreu e Luís da Costa Ataíde. Não há registros sobre sua formação artística, porém, tal qual pintores da época, possivelmente orientava-se por meio dos “cânones da igreja católica baseado nas gravuras dos livros sagrados e catecismos europeus. Sua obra possui também características do pintor francês Jean-Louis Demarne e do italiano Francesco Bartolozzi” (Frazão, 2015, p. 1). Ataíde, destacou-se na
“pintura ilusionista […] que proporcionava a impressão ao espectador de ser introduzido nos espaços celestes, técnica concebida pelo arquiteto-pintor Andrea Pozzo (1642-1709) para o forro da Igreja de Santo Inácio em Roma (1694), introduzida em Portugal e, em seguida, no Brasil” (Faria, Sd. p. 1).
Frazão (2015, p. 1), menciona que, assim como, Antônio Francisco Lisboa (aleijadinho), Ataíde consta entre os “principais nomes do barroco-rococó mineiro do início do século XIX. Sua arte compreende […] trabalhos em talha, pintura sobre painéis, pinturas de forros de igrejas”, dentre outras.
Segundo Almeida (2018, p. 206), “Ataíde era militar e possuía a patente de alferes. O artista seguiu os mesmos passos paternos, pois em 1797 foi ordenado sargento da Companhia de Ordenanças do arraial de São Bartolomeu”. De maneira que, “pode-se concluir que o artista não vivia apenas de sua produção artística, tendo de dividir suas obrigações entre o quartel e a capela, entre a espada e o pincel” (Almeida, 2018, p. 206).
Outro aspecto relevante que podemos salientar referente à vida pessoal de Ataíde, é o fato de que ele
“Nunca se casou, mas teve quatro filhos: Francisco de Assis Pacífico da Conceição, seu testamenteiro, Maria do Carmo Neri da Natividade, Francisca Rosa de Jesus e Ana Umbelina do Espírito Santo, que podem ter servido de modelo para suas pinturas de anjos, assim como cogita-se a busca de inspiração para a Madona mulata do forro da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto na mãe de seus filhos, Maria do Carmo Raimunda da Silva. Deixou libertos quatro escravos: Mateus, Lucas, Pedro e Maria” (FARIA, Sd. p. 1).
É referente às representações de mulatos(as) na pintura de Ataíde, que propomos um recorte, haja vista gabaritos da arte contemporânea à Ataíde basearem-se na produção artística europeia (Martins, 2019).
Como referido por Faria (Sd. p. 1), Ataíde pintou no “forro da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto” uma “Madona mulata” […] e, possivelmente sua fonte de inspiração tenha sido “Maria do Carmo Raimunda da Silva”, uma mulata com quem teve filhos. Salienta-se o fato de ser esse um momento de “hegemonia branca” da formação da sociedade brasileira, onde produções artísticas, tal qual a de Ataíde “são, em primeira instancia, as primeiras lutas por representatividade no campo das artes visuais no Brasil”. (Alvez; Rodrigues, 2017, p. 1). Portanto,
nesse momento […] “histórico em que reina o sistema escravocrata, Mestre Ataíde foi um homem de destaque, assim como seus contemporâneos, Aleijadinho e Mestre Valentim. Esses dois últimos filhos de africanas com portugueses, também adquiriram reconhecimento e prestígio por suas obras artísticas, além de serem figuras importantes na transmissão do saber artístico. Mesmo utilizando modelos vindos da Europa e direcionados a uma religião e um aparato simbólico distante de suas raízes negras, esses artistas produziram uma arte original, aproximando de suas vivências” (Alves; Rodrigues, 2017, p. 6).
Ataíde fora contemporâneo à introdução da Academia Real de Artes e Ofícios na então colônia portuguesa, o que na realidade acaba por ocasionar em “um distanciamento entre a arte e o povo, entre a arte erudita e a arte popular, entre as belas artes e o artesanato” […] dinâmica essa que, torna ainda mais importante às retratações ambivalentes de Ataíde referentes à presença e participação do negro em dado contexto (Alves; Rodrigues, 2017, p. 6).
A constatação da experiência de vida expressa na arte de Ataíde e demais artistas do seu tempo, não implica simplesmente numa retratação artística do cotidiano social e cultural da capitania das Minas Gerais, mas, trata-se de um trabalho que rompe com o que havia sido estabelecido pela igreja, como molde e parâmetro artístico daquilo que deveria ser um modelo estabelecido de sociedade (Martins, 2019).
Abordando esse contexto de transição da arte informal para a arte formal do Brasil Império, o que ainda compreendia ao período de produção artística de Ataíde, Alves e Rodrigues (2017, p. 7) consideram que
[…] “a população negra não permaneceu apenas nos modos de representação. Apesar de um maior distanciamento, artistas negros entraram nesse sistema de ensino, Firmino Monteiro, Estevão Silva, Rafael Pinto Bandeira e os irmãos João e Arthur Thimóteo da Costa, se inserido em um local extremamente seletivo, tendo a arte como meio de expressão e também subsistência”.
Ataíde, torna-se expoente quanto a representação do mulato(a) em suas obras artísticas e um exemplo formal do produto da “história vivida” mediante a “história vista de baixo” (Marczal, 2016, p. 128, 129). Martins (2019, p. 15) menciona que as obras do “[…] Mestre Ataíde trazem em sua composição figuras carregadas de significados” e, diz também que
“[…] percebeu-se a escassez de imagens referentes à figura da mulher negra já miscigenada na arte barroca brasileira, assim como a pesquisadora Renata Felinto (2013) constatou ao estudar sobre a arte produzida neste período. Este fato pode ser explicado pela preocupação desta arte de caráter religioso, no que diz respeito às mulheres, de difundir um determinado ideal feminino branco. Por conta disso, a representação do feminino negro como personificação deste ideal não era comum, embora tenha ocorrido. São justamente essas representações iconográficas de corpos negros socialmente deslocados das expectativas culturais da época que são analisadas nas obras de Mestre Ataíde” (Martins, 2019, P. 17).
Uma outra perspectiva apresentada por Martins (2019) foi quanto a sua análise daquilo que havia sido salientado por Toledo (2013):
Observa-se […] “que uma das imagens mais exploradas pela fé católica nesta época foi a da Virgem Maria – entre outras santas – que exercia sobre as mulheres, sobretudo as mulheres brancas e da alta sociedade, grande influência de conduta, pois era considerada um exemplo de virtude feminina a ser seguido” (Martins, 2019, p. 5 apud Toledo, 2013).
Se contrapondo a representação exclusiva da mulher branca, Ataíde produz a arte de Nossa Senhora da Porciúncula (mulata) no teto da igreja de São Francisco na cidade de Ouro Preto/MG (1801-1812) bem como os (Anjos músicos) de fenótipo mulato (Martins, 2019;).
Frazão (2015, p. 2) diz que em parceria “com os pintores João Batista de Figueiredo, Antônio Martins da Silveira, entre outros, Ataíde formava a chamada Escola de Mariana” e, Faria (Sd. p. 1) complementa essa informação ao dizer que, Ataíde, no ano de
“[…] 1818 escreveu ao rei de Portugal solicitando o estabelecimento de Aula de Desenho e Arquitetura, em Mariana, enviando também atestado do Senado de Mariana declarando Ataíde como professor de arquitetura e pintura, mas não obteve resposta. Em 1816, já havia chegado a Missão Artística Francesa, impulsionando a criação da Academia Imperial de Belas Artes”.
Hoje, em pleno sec. XXI salienta-se estarem às obras do Mestre Ataíde disponíveis para visitação em algumas cidades de Minas Gerais, como Ouro Preto, Ouro Branco, Santa Bárbara, Mariana e outras mais e, buscar conhecê-las, melhor, significa adentrar numa “história de um dos períodos mais efervescentes e gloriosos do Brasil colônia” (Souza, 2019, p. 58).
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Milton José de. REDE DE TEXTOS E IMAGENS E METAMORFOSES VISUAIS. Educ. Soc., Campinas , v. 39, n. 142, p. 203-226, jan. 2018 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302018000100203&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 28 Dez. 2020.
ALVES, S. R. ; RODRIGUES, M. E. Arte e afrobrasilidade como expoentes de luta e resistência. In: REVISTA DIGITAL DO LAV. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/revislav/article/view/26911/pdf . Acesso em: 02 Jan. 2021.
MELO, Alfredo Cesar B. de. RAÇA E MODERNIDADE EM FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO, DE CAIO PRADO JR. Rev. bras. Ci. Soc., São Paulo , v. 35, n. 102, e3510215, 2020 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092020000100504&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 29 Dez. 2020.
MARCZAL, Ernesto Sobocinski. Introdução à historiografia: das abordagens tradicionais às perspectivas pós-modernas. Paraná: Curitiba, Intersaberes, 2016.
MARTINS, Gabriela Ramos Ribeiro. Ave-Marias: Uma análise da representação simbólica de mulheres negras nas obras artísticas de Manoel da Costa Ataíde e Jean-Baptiste Debret. In: CELACC. Disponível em: http://celacc.eca.usp.br/?q=pt-br/tcc_celacc/ave-marias-analise-da-representacao-simbolica-mulheres-negras-nas-obras-artisticas-manoel . Acesso em: 02 Jan. 2021.
FRAZÃO, Dilva. Mestre Ataíde. In: eBiografia. Disponível em: https://www.ebiografia.com/mestre_ataide/. Acesso em: 02 Jan. 2021.
FARIA, Patrícia Souza de. Mestre Athayde. In: BNDigital. Disponível em: http://bndigital.bn.gov.br/mestre-athayde/ Acesso em: 02 Jan. 2021.
SOUZA, Alex Augusto de. Cultura e religião: tramas e narrativas do barroco mineiro. 2019. 120 f. Dissertação (mestrado em Ciências Sociais)–Universidade Estadual de Maringá, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, 2019, Maringá, PR.